Quarta-feira, Novembro 16, 2011

FAMÍLIA

FAMÍLIA: questões teológicas, sociais e práticas

Família: uma questão social

“Família, família: cachorro, gato, galinha. Família, família: vive junto todo dia, nunca perde essa mania. A mãe morre de medo de barata, o pai vive com medo de ladrão. Jogaram inseticida pela casa, botaram cadeado no portão. Família, ê! Família, ah! Família”. Esse é um trecho de uma canção# que eu costumava ouvir na minha infância e me identificava bastante com a maneira divertida como o compositor descrevia a rotina familiar.
Realmente, família tem destas coisas: rotinas, manias, situações engraçadas, sorrisos, lágrimas, brigas, reconciliações. Em alguns instantes a amamos, em outros sentimos o desejo de ir para bem longe dela. Enquanto umas pessoas, por rejeitar a família na qual nasceram, vivem tentando fugir da mesma, outras, largadas nos orfanatos, fariam de tudo para ter uma base familiar que as amparasse. Enfim, ninguém com uma pequena parcela de juízo que fosse negaria que questões familiares têm a força suficiente para abalar nossas estruturas emocionais e comportamentais.
O poder de influência da família, contudo, não se resume a questões psicológicas, restritas ao âmbito da interioridade humana. Os conceitos, valores e práticas, cultivadas ou não no foro íntimo dos lares, refletem na forma como os seus membros se relacionam com a comunidade ao seu redor. Os grupos familiares, portanto, têm um papel fundamental na construção e manutenção das estruturas sociais mais complexas. Por reconhecerem essa verdade, indivíduos e instituições importantes no nosso país, como magistrados e partidos políticos, têm adotado a família como bandeira e proposto fóruns de discussão sobre sua importância e papel. Muitos já têm se rendido ao fato de que sua desestrutura pode ser considerada uma das mais importantes causas de uma série de fenômenos sociais como a violência, criminalidade, consumo de drogas, dentre outras mazelas. Uma forma lógica de ajudar a dirimir esses problemas, além da adoção de medidas político-econômicas que visem diminuir as desigualdades sociais, seria o investimento no fortalecimento das estruturas familiares. Cultivar valores como respeito aos pais, afeição, altruísmo, senso de coletividade. Todas essas coisas cooperariam para a construção de sociedades mais humanas, onde seus membros se reconheceriam como parte integrante de algo maior o que eles mesmos. O que se aprende em casa se reproduz fora dela.
Família: uma questão teológica
Embora o discurso sobre família envolva legitimamente questões tanto do âmbito da psicologia quanto da sociologia, é na teologia bíblica que encontramos o ambiente mais adequado para que possamos compreender as questões mais profundas acerca do seu sentido e propósito. O que é a família à luz da Palavra de Deus? Por que deveríamos considerá-la importante? Qual seria sua razão de existir?
É na família que a imagem de Deus no homem é evidenciada em sua inteireza
Uma investigação acerca do conceito de família na Bíblia nos remete aos primórdios da criação. O relato do Gênesis sobre Deus fazendo o primeiro homem vem seguido de uma  declaração intrigante da parte do próprio Criador: “Não é bom que o homem esteja só…” (Gn 2:18 NVI). O Senhor todo poderoso deixou claro nessa afirmação que o homem foi criado como um ser social e a maneira de exercer de forma mais adequada esta vida em comunidade seria por meio da família. Por isso, imediatamente decide: “… farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda” (Gn 2:18 NVI). Era justamente na vida familiar, iniciada a partir da sua relação com o cônjuge, que o ser humano experimentaria sua verdadeira identidade, refletindo a natureza daquele que o criou.
O grande diferencial da espécie humana em relação às outras criaturas – o fato do homem ter sido feito conforme a imagem e semelhança de Deus – só alcança a plenitude da sua expressão no contexto familiar. “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:27 NVI, grifo nosso). O texto sagrado nos ensina que justamente sendo homem e mulher é que a humanidade manifesta de forma mais significativa a imagem de Deus. Assim como Ele subsiste eternamente como um ser plural, que exercitava o amor entre si, nas pessoas da trindade, antes mesmo que a humanidade fosse criada (Jo 17: 24), nós fomos desenhados para, em família, viver o amor que o Criador imprimiu em nossa natureza. Só na vida familiar podemos ser como o Senhor: ao mesmo tempo unidade e pluralidade. Portanto, quanto mais convivemos harmoniosamente no nosso lar, repartimos, cedemos, perdoamos e pedimos perdão, encorajamos, compartilhamos os mesmos sonhos, temos os mesmos propósitos, todas essas coisas evidenciarão para o resto da criação: somos seres singulares, temos a imagem de Deus em nós.
Uma das primeiras consequências do pecado foi a desunião e desestruturação da família
Com a entrada do pecado no mundo dos homens, seus efeitos – conquanto tenham afetado a criação como um todo – puderam ser sentidos de forma singular e imediata na família. O primeiro exemplo disso pode ser percebido em Adão que, antes da desobediência, havia declarado seu amor por Eva em um lindo poema exaltando a unidade do casal: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada.” (Gn 2: 23 NVI). No entanto, após a queda, diante do temor pela pergunta que o Senhor lhe fizera, não exitou em desconsiderar o senso de unidade e jogar a culpa do erro para a sua esposa julgando, assim, que poderia se isentar da responsabilidade: “Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gn 3: 12 NVI).
É impressionante o poder de desagregação familiar que o pecado tem. O Mesmo Adão que cantara o fato de compartilhar carne e ossos com sua mulher, agora, não exitara em dizer: “a culpa foi dela, eu não tenho nada com isso”. Essa desagregação tomou proporções ainda maiores na vida dos seus filhos. Os irmãos que deveriam se amar e contribuir juntos para o bem da família começam a vivenciar um contexto de inveja, especialmente por parte de Caim, que culminou no assassinato de Abel.
Todo o projeto de Deus de ser glorificado no mundo é por meio da família
Quando o Senhor criou o homem e a mulher segundo a sua imagem e semelhança, “os abençoou, dizendo: ‘Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem’” (Gn 1: 28 NTLH). Por que não se contentara o Pai com apenas Adão e Eva como portadores da semelhança divina? Porque quanto mais a imagem de Deus fosse espalhada sobre a terra, mais a criação cumpriria sua razão de existir: glorificar o Criador. Por isso a necessidade de ter filhos. Para gerar mais pessoas com a imagem de Deus e cobrir a terra com a Sua beleza. Logo, sem a família, dificilmente a humanidade encontra o seu lugar adequado no projeto criativo do Senhor.
Além disso, o projeto de redenção após o pecado também se dá por meio da família e visando alcançar as famílias. A esperança para Adão e Eva estaria na sua descendência (Gn 3: 15); em meio ao dilúvio, Deus manifesta sua graça e dá uma nova chance à humanidade, preservando a família de Noé bem como as dos seus filhos (Gn 8: 18);  o chamado de Abraão era para que ele tivesse uma família e, por meio dela, abençoasse todas as famílias da terra (Gn 12: 2, 3). É justamente nisto que está a grande importância das genealogias da Bíblia. Para mostrar que, apesar de todas as circunstâncias ameaçadoras, Deus manteve sua promessa protegendo a descendência redentora. Isso explica o porquê do Novo Testamento, ao anunciar a boa notícia de Jesus Cristo, começar com sua genealogia no primeiro capítulo de Mateus.
Família: uma questão prática
Uma compreensão adequada do conceito de família tem feito com que muitos paradigmas sejam modificados em nossas estruturas eclesiásticas. Nos sistemas tradicionais, as famílias geralmente se deslocam à instituição igreja e se dividem para servir ao Senhor nas uniões de homens, de mulheres, jovens, adolescentes. Hoje, muitas comunidades religiosas têm adotado, por exemplo, a estratégia de trabalho com grupos pequenos que ao invés de trazer as famílias para o templo com o fim de se dividirem para ser igreja, está levando a igreja para os lares com a finalidade de se unirem para ser família.
Além de um repensar eclesiástico, a teologia da família também precisa nos inclinar para a ação missionária e promoção de justiça social. Jesus veio de uma família que foi escolhida e preservada por Deus para abençoar a minha e a sua. De igual modo nossas famílias têm a missão de ser agentes abençoadores e transformadores do mundo em que vivemos. As famílias cristãs, portanto, precisam identificar seu papel de serviço e transformação da realidade social e espiritual na qual estão inseridas. Não podemos nos contentar ao ver a prosperidade de nossos lares – tanto espiritual quanto material – enquanto existem famílias mergulhadas no lamaçal do pecado e da pobreza, sem esperança na eternidade nem perspectiva de condições dignas de vida.
Ame e sirva à sua família. Valorize o que tem aprendido dos seus pais. Seja menos egoísta no relacionamento com seus irmãos. Convoque seus familiares para amar e servir outras famílias que estejam ao seu redor. Relacione-se com seus vizinhos. Faça do seu lar uma agência missionária que prega por meio de ações e palavras. Fazendo isto seremos não apenas abençoados pelo Pai, mas experimentaremos a satisfação de ajudá-lo a cumprir o propósito pelo qual nos criou: ser glorificado em todas as famílias da terra.
Perguntas para crescimento e reflexão
  1. Em que sentido o conceito de família transcende nossas questões emocionais interiores?
  2. Em sua opinião, levar as pessoas a refletir sobre valores familiares poderia ser um bom instrumento na promoção de paz e bem estar social? Por quê?
  3. Qual a relação da família com o fato do homem ter sido feito à imagem e semelhança de Deus?
  4. Que relação existe entre a teologia bíblica da família e o plano redentor de Deus em Cristo?
  5. Que papel você tem desempenhado no seu ciclo familiar?
  6. Que metas pessoais você poderia estabelecer para dar uma contribuição mais significativa para a sua família e para outras famílias ao seu redor?

Emanuel Batista Uchôa (Maninho)
Pastor adjunto da Igreja Batista Cidade Jardim - Natal RN
Coordenador de Capacitação da CBNR
Professor do Seminário Teológico Batista Potiguar

0 comentários:

Postar um comentário